O Sul de Mato Grosso, por alguns séculos, foi reduzido à condição de re¬serva de gado, cujos portos fluviais, no rio Paraguai, asseguravam a Cuiabá o acesso aos grandes centros econômicos e políticos. Porém, após a Guerra com o Paraguai, as vilas e as cidades nos ervais e Campos de Vacaria cresciam alheios às ordens e à assistência político-administrativa de Cuiabá. O Sul de Mato Grosso, no entanto, no início do período republicano, des¬ponta como uma economia disponível, suplente que substitui a antiga c deca¬dente economia mineradora do Norte de Mato Grosso. Entretanto, apesar da decadência da economia mineradora, Cuiabá mantém-se como centro político-administrativo estadual. Com a capital em Cuiabá, o governo enfrenta alguns entraves para administrar o extenso território mato-grossense: grandes distâncias entre a capital e as cidades do Sul, faltas de comunicação eficiente, não apenas com as cidades mato-grossenses, mas tam¬bém com o Rio de Janeiro, sede do governo federal. Esses entraves fazem de Cuiabá uma capital isolada, dentro do próprio Estado de Mato Grosso. Essa dis¬tância dificulta ao governo não apenas a fiscalização do desenvolvimento econômico do Sul de Mato Grosso, mas também o controle da divulgação da idéia divisionista na região. Assim, o Sul do Estado, apesar de distante da Capital, torna-se, por causa de sua importância sócio-econômica e política, o ponto de atenção desgoverno estadual.
A importância sócio-econômica e política do Sul de Mato Grosso acentua-se, na medida em que ocorre a sistematização da criação do gado, a posse da terra e a formação de vilas e de cidades; concomitante a esses fatores ocorre a instalação da Companhia Matte Larangeira e a ligação ferroviária entre o Sul de Mato Grosso e São Paulo. O desenvolvimento econômico do Sul de Mato Grosso proporciona o for¬talecimento político de um grupo composto de grandes proprietários rurais da região que praticam a pecuária extensiva, cuja atividade econômica exige grandes extensões de terras. Sendo assim, este grupo fundamenta seu poder político e econômico no latifúndio e na associação a outros fazendeiros e não proprietários estabelecendo laços de interdependência. As complexas relações sócio-econômicas e políticas entre proprietários e não proprietários fortale¬cem, politicamente, alguns grupos de famílias, dando origem à formação das oligarquias sulinas desvinculadas das já existentes no Norte. A sistematização da pecuária leva, também, o fazendeiro a estabelecer laços comerciais com os mora¬dores dos ervais e Campos de Vacaria e outras regiões, ou seja, ao mesmo tem¬po em que o fazendeiro vende seu gado, ele é intermediário na distribuição e venda dos produtos importados na região sul-mato-grossense. No início da República Velha havia escassez de moeda circulante; esse fato reforça e estimula um costume antigo, a troca de produtos. Dessa forma, fazendeiros e outros mo¬radores dos ervais e Campos de Vacaria entregam ao fazendeiro-comerciante: gado, erva-mate, peles de animais silvestres e outros produtos, por conta dos ar¬tigos importados e comercializados pelo fazendeiro-comerciante, estabelecendo assim uma interdependência econômica e também política. É neste meio que o fazendeiro-comerciante torna-se líder político local e arregimentam homens armados para ajudá-lo nas suas lutas políticas. Bento Xavier, por exemplo, é um destes fazendeiros-comerciantes. Egresso da 'Revolução' de 1893 no Rio Grande do Sul, inicialmente, estabelece sua fazen¬da e sua casa comercial em Itá. Mais tarde, com a prosperidade de seus negócios chega a possuir cinco fazendas e estabelece também uma casa comercial em Boa Vista, no município de Ponta Porã. Bento Xavier mantém ligações comerciais com Concepción no Paraguai, para onde conduzia tropas de gado e, de volta, trazia mercadorias para abastecer suas casas comerciais de Itá e de Boa Vista.
No Sul de Mato Grosso, as relações entre Bento Xavier e moradores dos ervais estabelecem uma dependência econômica e, por conseguinte, criam uma interdependência sócio-política. É entre os moradores dos ervais que Bento Xavier busca homens armados e apoio financeiro para sustentar suas 'revoluções' divisionistas. Durante a ocorrência das 'revoluções', chefiadas por Bento Xavier, esse fazendeiro-comerciante "contou com a adesão de mais de cinco mil gaúchos solidários com seu ponto de vista, de que só a divisão do Estado facilitaria a legalização das posses de terras". Nos primeiros anos da República Velha, os fazendeiros sul-mato-grossenses comercializavam, principalmente, com Concepción no Paraguai e com Uberaba no Triângulo Mineiro.
Mais tarde, com a chegada da ferrovia, as relações sócio-econômicas tor¬nam-se mais complexas e dinâmicas. Com isso, as oligarquias sul-mato-grossenses que se fizeram independentes das oligarquias do Norte de Mato Gros¬so e, apesar de sua formação recente, são econômica e politicamente tão im¬portantes quanto à do Norte. A chefia das oligarquias, tanto no Norte quanto no Sul, é exercida pêlos coronéis. O coronelismo, na Primeira República, é uma "forma peculiar da manifestação do poder privado que coexiste com um regime político de ex¬tensa base representativa. Esse coronelismo é alimentado pelo poder público, que não prescindia de um eleitorado rural, sob o domínio dos proprietários de terras. Assim, o poder privado estabelece relações de compromissos com o poder público numa troca de interesses e proveitos, centralizando nos chefes políticos municipais os coronéis do interior, cujo prestígio político servirá de fundamento ao sistema coronelista”. A atividade política dos coronéis, no período da República Velha, caracteriza-se pelo confronto armado, isto é, a disputa pelo poder sócio-econômico e político como forma de revelar ou ga¬rantir a supremacia de certos grupos oligárquicos no Estado passa pela luta armada e, não raro, pelo aniquilamento das lideranças. Essa tática política é utilizada, principalmente, contra os coronéis sulistas, que defendem a bandei¬ra divisionista, porém, o aniquilamento do adversário traz em si o germe das próximas crises, uma vez que, a morte ou o banimento do coronel divisionista não faz desaparecer a idéia divisionista, muito pelo contrário, o divisionismo reaparece sempre que há o rompimento de um acordo oligárquico que não atende às reivindicações sulistas.
Uma trajetória divisionista
A criação do Estado de Mato Grosso do Sul é resultado de um longo movimento, com características sócio–econômicas, políticas e culturais, que permeou sua formação histórica recente. A resistência sul-mato-grossense é uma das peculiaridades que entremeiam a história de Mato Grosso do Sul desde os primeiros tempos de conquista espanhola, depois luso-brasileira. Em cada período histórico e resistência sul-mato-grossense aparece com uma conotação. O movimento divisionista no Sul de Mato Grosso tem sua origem nos fins do século XIX, 1889, quando alguns políticos corumbaenses divulgam um manifesto, no qual propunham a transferência da capital de Mato Grosso para Corumbá. A atitude desses políticos não se tornou vitoriosa, mas, mostrou que essa tímida ação política permitiu marcar o início de uma longa história de lutas e revezes. Alguns fatores como a sistematização da pecuária, o desenvolvimento sócio-econômico das vilas e cidades, a exploração da erva-mate pela Companhia Matte Laranjeira e a ligação entre o Sul de Mato Grosso e São Paulo, marcaram a origem do movimento divisionista.
O movimento divisionista pode ser dividido em quatro grandes fases que acompanham a evolução histórica do Estado no período republicano. A primeira fase, de 1889-1930, é marcada pela formação das oligarquias sul-mato-grossense que lutam pelo reconhecimento da posse da terra, fazendo oposição aos privilégios da Companhia Matte Laranjeira. É nessas lutas, que, nos ervais e Campos de Vacaria, se manifesta à idéia divisionista. As oligarquias sulinas, nas lutas políticas, uniram-se, nas primeiras décadas da República Velha, às oligarquias de Cuiabá, adversárias da Companhia Matte Laranjeira e que tinham interesses nos ervais. Através dessa aliança as oligarquias sul-mato-grossenses fizeram oposição armada ao governo estadual e a Matte Laranjeira. Inicialmente, o movimento divisionista não tem um plano, um programa político definido, os objetivos divisionista quase sempre se confundiam com interesses pessoais do coronel. Percebe-se, neste período, que era elite, formada pelos fazendeiros que defendiam a idéia divisionista.
A partir de 1920, com a transferência do comando da Circunscrição Militar para Campo Grande, e o aumento do contingente militar no Sul de Mato Grosso, as oligarquias sulinas decepcionadas com as antigas alianças, aliam-se ao militares e adotam sugestões de outros movimentos vindos de fora do Estado como forma de fortalecer a causa local. A este fator é somada a regularização das viagens ferroviárias que propiciaram a chegada de novos migrantes e a dinamização da economia sul-mato-grossense. Outro reflexo das viagens ferroviárias é a vinculação do sul de Mato Grosso com a economia paulista e o conseqüente desenvolvimento das cidades exportadoras de gado, particularmente Campo Grande, e a transferência do eixo econômico Cuiaba-Corumbá - Rio Paraguai para Campo Grande. Esta transferência possibilita a formação de novas lideranças políticas ligadas ao comércio e a outras atividades profissionais, e um crescimento demográfico na região sul-mato-grossense. Esse quadro, de novos fatores de ordem sócio-econômica e política, trazem significativas mudanças no movimento divisionista, o qual extrapola ervais e atingem as cidades exportadoras de gado, particularmente Campo Grande. É o início da urbanização do movimento. A Segunda fase, de 1930-1945, é o período em que o movimento começa a organizar-se; as lutas armadas, gradativamente, são substituídas por pressões políticas junto ao Governo Federal. Em 1932, os sul-mato-grossenses aliam-se aos paulistas e lutam na Revolução Constitucionalista.
Neste confronto armado liderado por Bertoldo Klinger, comandante da Circunscrição Militar em Mato Grosso e Comandante Geral das tropas rebeldes instalada no sul de Mato Grosso num governo dissidente para o qual nomeia Vespasiano Martins. Após três meses de governo e de luta, os divisionistas e constitucionalistas são derrotados, e o novo Estado desaparece. Essa revolução serviu para divulgar a idéia divisionistas e Campo Grande torna-se o centro político de difusão do movimento.
Dois anos depois, 1934, o Congresso Nacional reunía-se para elaborar uma nova Constituição. Jovens estudantes fundam a Liga Sul-Mato-Grossense que, inicialmente objetiva angariar apoio dos sul-mato-grossenses para o manifesto que seria encaminhado ao Presidente do Congresso Nacional Constituinte. A Liga desencadeia a campanha divisionista no sul de Mato Grosso, coletando Treze Mil assinaturas, com as quais visava sensibilizar o governo federal, particularmente os Constituintes, para que eles, na elaboração da Constituição, aprovassem a divisão do Estado de Mato Grosso. Após a promulgação da Constituição, os divisionistas são derrotados, e Getúlio Vargas adota a política nacionalista “Marcha para o Oeste”, a qual visava, entre outros objetivos, a segurança das fronteiras. Para isso mandou instalar novas unidades militares no Sul de Mato Grosso. O aumento do contingente militar efetivou outros objetivos do governo que era a manutenção da ordem e progresso dessa região fronteiriça.
Os divisionistas são envolvidos pela política de Vargas; a Companhia Matte Laranjeira adapta-se a essa política e altera sua estratégia em relação à unidade estadual. Ou seja, os ervais estavam devastados e também a política do Instituto Brasileiro do Matte, criado por Getúlio Vargas, não lhe favoreciam grandes lucros. Por isso ela permite que o governo estadual regularize as posses de terras dos moradores dos ervais, em troca de indenizações sobre os arrendamentos. Em 1943, Getúlio Vargas, em nome da segurança das fronteiras cria o Território de Ponta Porã, o qual deixa de fora, da nova unidade, Campo Grande a principal cidade divisionista. A Criação do Território de Ponta Porã não atendeu aos interesses divisionistas, não satisfaz a política da Companhia Matte Laranjeira, e também não agradou ao governo estadual. Nesse período, o Sul de Mato Grosso é marcado por grandes prosperidades, a qual não era suficiente para equilibrar as finanças estaduais. Percebe-se, nessa fase, que a política de Getúlio Vargas foi um dos obstáculos aos objetivos divisionistas. Percebe-se ainda, a formação de novas oligarquias e a Companhia Matte Laranjeira, gradativamente, retira-se dos ervais. A terceira fase vai de 1945 a 1964.
Após a deposição de Getúlio Vargas, o novo Presidente da República é o General Eurico Gaspar Dutra, que era mato-grossense de Cuiabá. Ele adota uma política de redemocratização do país, a qual reforça a política de integração nacional que incentiva a manutenção da unidade estadual. Em 1946, após a promulgação da Constituição, o governo federal extingue o Território de Ponta Porã reintegrando a região ao Estado de Mato Grosso. Apesar dessa política, os divisionistas, durante as reuniões da Assembléia Constituinte, reorganiza-se e tentam a transferência da Capital de Cuiabá para Campo Grande. As iniciativas divisionistas desse período são frustradas, em parte, devido a grande representatividade política dos sul-mato-grossenses nas esferas estadual e federal, e também, por causa da política de integração nacional do governo federal. Percebe-se que, nesse período, depois de várias reformulações em sua estrutura organizacional, a Companhia Matte Laranjeira mostra desinteresse em reflorestar os ervais, paradoxalmente estimula o governo estadual à regularizadas posses dos colonos. A Quarta fase é de 1964-1977. O golpe de 31 de Março de 1964 põe fim a um período de democracia e inicia um regime militar autoritário. Os militares, buscando um maior controle dos problemas da sociedade, adotam a política do desenvolvimento com segurança, o que permitiu a criação de programas que facilitam o desenvolvimento de alguns Estados, entre eles Mato Grosso. Nesse período, os políticos divisionistas aproximam-se dos militares o que lhes permite tomar parte de algumas comissões que estudam (secretamente) as potencialidades políticas que impediam a divisão de Mato Grosso. Após vários estudos, negociações, acordos políticos, o Presidente Ernesto Geisel assina em 11 de Outubro de 1977 a Lei Complementar nº. 31 que cria o Estado de Mato Grosso do Sul. Nessa fase, a Companhia Matte Laranjeira mantinha apenas algumas fazendas de gado, o seu principal interesse econômico de outrora, a erva-mate, agora era explorado por ervateiros autônomos.
A importância sócio-econômica e política do Sul de Mato Grosso acentua-se, na medida em que ocorre a sistematização da criação do gado, a posse da terra e a formação de vilas e de cidades; concomitante a esses fatores ocorre a instalação da Companhia Matte Larangeira e a ligação ferroviária entre o Sul de Mato Grosso e São Paulo. O desenvolvimento econômico do Sul de Mato Grosso proporciona o for¬talecimento político de um grupo composto de grandes proprietários rurais da região que praticam a pecuária extensiva, cuja atividade econômica exige grandes extensões de terras. Sendo assim, este grupo fundamenta seu poder político e econômico no latifúndio e na associação a outros fazendeiros e não proprietários estabelecendo laços de interdependência. As complexas relações sócio-econômicas e políticas entre proprietários e não proprietários fortale¬cem, politicamente, alguns grupos de famílias, dando origem à formação das oligarquias sulinas desvinculadas das já existentes no Norte. A sistematização da pecuária leva, também, o fazendeiro a estabelecer laços comerciais com os mora¬dores dos ervais e Campos de Vacaria e outras regiões, ou seja, ao mesmo tem¬po em que o fazendeiro vende seu gado, ele é intermediário na distribuição e venda dos produtos importados na região sul-mato-grossense. No início da República Velha havia escassez de moeda circulante; esse fato reforça e estimula um costume antigo, a troca de produtos. Dessa forma, fazendeiros e outros mo¬radores dos ervais e Campos de Vacaria entregam ao fazendeiro-comerciante: gado, erva-mate, peles de animais silvestres e outros produtos, por conta dos ar¬tigos importados e comercializados pelo fazendeiro-comerciante, estabelecendo assim uma interdependência econômica e também política. É neste meio que o fazendeiro-comerciante torna-se líder político local e arregimentam homens armados para ajudá-lo nas suas lutas políticas. Bento Xavier, por exemplo, é um destes fazendeiros-comerciantes. Egresso da 'Revolução' de 1893 no Rio Grande do Sul, inicialmente, estabelece sua fazen¬da e sua casa comercial em Itá. Mais tarde, com a prosperidade de seus negócios chega a possuir cinco fazendas e estabelece também uma casa comercial em Boa Vista, no município de Ponta Porã. Bento Xavier mantém ligações comerciais com Concepción no Paraguai, para onde conduzia tropas de gado e, de volta, trazia mercadorias para abastecer suas casas comerciais de Itá e de Boa Vista.
No Sul de Mato Grosso, as relações entre Bento Xavier e moradores dos ervais estabelecem uma dependência econômica e, por conseguinte, criam uma interdependência sócio-política. É entre os moradores dos ervais que Bento Xavier busca homens armados e apoio financeiro para sustentar suas 'revoluções' divisionistas. Durante a ocorrência das 'revoluções', chefiadas por Bento Xavier, esse fazendeiro-comerciante "contou com a adesão de mais de cinco mil gaúchos solidários com seu ponto de vista, de que só a divisão do Estado facilitaria a legalização das posses de terras". Nos primeiros anos da República Velha, os fazendeiros sul-mato-grossenses comercializavam, principalmente, com Concepción no Paraguai e com Uberaba no Triângulo Mineiro.
Mais tarde, com a chegada da ferrovia, as relações sócio-econômicas tor¬nam-se mais complexas e dinâmicas. Com isso, as oligarquias sul-mato-grossenses que se fizeram independentes das oligarquias do Norte de Mato Gros¬so e, apesar de sua formação recente, são econômica e politicamente tão im¬portantes quanto à do Norte. A chefia das oligarquias, tanto no Norte quanto no Sul, é exercida pêlos coronéis. O coronelismo, na Primeira República, é uma "forma peculiar da manifestação do poder privado que coexiste com um regime político de ex¬tensa base representativa. Esse coronelismo é alimentado pelo poder público, que não prescindia de um eleitorado rural, sob o domínio dos proprietários de terras. Assim, o poder privado estabelece relações de compromissos com o poder público numa troca de interesses e proveitos, centralizando nos chefes políticos municipais os coronéis do interior, cujo prestígio político servirá de fundamento ao sistema coronelista”. A atividade política dos coronéis, no período da República Velha, caracteriza-se pelo confronto armado, isto é, a disputa pelo poder sócio-econômico e político como forma de revelar ou ga¬rantir a supremacia de certos grupos oligárquicos no Estado passa pela luta armada e, não raro, pelo aniquilamento das lideranças. Essa tática política é utilizada, principalmente, contra os coronéis sulistas, que defendem a bandei¬ra divisionista, porém, o aniquilamento do adversário traz em si o germe das próximas crises, uma vez que, a morte ou o banimento do coronel divisionista não faz desaparecer a idéia divisionista, muito pelo contrário, o divisionismo reaparece sempre que há o rompimento de um acordo oligárquico que não atende às reivindicações sulistas.
Uma trajetória divisionista
A criação do Estado de Mato Grosso do Sul é resultado de um longo movimento, com características sócio–econômicas, políticas e culturais, que permeou sua formação histórica recente. A resistência sul-mato-grossense é uma das peculiaridades que entremeiam a história de Mato Grosso do Sul desde os primeiros tempos de conquista espanhola, depois luso-brasileira. Em cada período histórico e resistência sul-mato-grossense aparece com uma conotação. O movimento divisionista no Sul de Mato Grosso tem sua origem nos fins do século XIX, 1889, quando alguns políticos corumbaenses divulgam um manifesto, no qual propunham a transferência da capital de Mato Grosso para Corumbá. A atitude desses políticos não se tornou vitoriosa, mas, mostrou que essa tímida ação política permitiu marcar o início de uma longa história de lutas e revezes. Alguns fatores como a sistematização da pecuária, o desenvolvimento sócio-econômico das vilas e cidades, a exploração da erva-mate pela Companhia Matte Laranjeira e a ligação entre o Sul de Mato Grosso e São Paulo, marcaram a origem do movimento divisionista.
O movimento divisionista pode ser dividido em quatro grandes fases que acompanham a evolução histórica do Estado no período republicano. A primeira fase, de 1889-1930, é marcada pela formação das oligarquias sul-mato-grossense que lutam pelo reconhecimento da posse da terra, fazendo oposição aos privilégios da Companhia Matte Laranjeira. É nessas lutas, que, nos ervais e Campos de Vacaria, se manifesta à idéia divisionista. As oligarquias sulinas, nas lutas políticas, uniram-se, nas primeiras décadas da República Velha, às oligarquias de Cuiabá, adversárias da Companhia Matte Laranjeira e que tinham interesses nos ervais. Através dessa aliança as oligarquias sul-mato-grossenses fizeram oposição armada ao governo estadual e a Matte Laranjeira. Inicialmente, o movimento divisionista não tem um plano, um programa político definido, os objetivos divisionista quase sempre se confundiam com interesses pessoais do coronel. Percebe-se, neste período, que era elite, formada pelos fazendeiros que defendiam a idéia divisionista.
A partir de 1920, com a transferência do comando da Circunscrição Militar para Campo Grande, e o aumento do contingente militar no Sul de Mato Grosso, as oligarquias sulinas decepcionadas com as antigas alianças, aliam-se ao militares e adotam sugestões de outros movimentos vindos de fora do Estado como forma de fortalecer a causa local. A este fator é somada a regularização das viagens ferroviárias que propiciaram a chegada de novos migrantes e a dinamização da economia sul-mato-grossense. Outro reflexo das viagens ferroviárias é a vinculação do sul de Mato Grosso com a economia paulista e o conseqüente desenvolvimento das cidades exportadoras de gado, particularmente Campo Grande, e a transferência do eixo econômico Cuiaba-Corumbá - Rio Paraguai para Campo Grande. Esta transferência possibilita a formação de novas lideranças políticas ligadas ao comércio e a outras atividades profissionais, e um crescimento demográfico na região sul-mato-grossense. Esse quadro, de novos fatores de ordem sócio-econômica e política, trazem significativas mudanças no movimento divisionista, o qual extrapola ervais e atingem as cidades exportadoras de gado, particularmente Campo Grande. É o início da urbanização do movimento. A Segunda fase, de 1930-1945, é o período em que o movimento começa a organizar-se; as lutas armadas, gradativamente, são substituídas por pressões políticas junto ao Governo Federal. Em 1932, os sul-mato-grossenses aliam-se aos paulistas e lutam na Revolução Constitucionalista.
Neste confronto armado liderado por Bertoldo Klinger, comandante da Circunscrição Militar em Mato Grosso e Comandante Geral das tropas rebeldes instalada no sul de Mato Grosso num governo dissidente para o qual nomeia Vespasiano Martins. Após três meses de governo e de luta, os divisionistas e constitucionalistas são derrotados, e o novo Estado desaparece. Essa revolução serviu para divulgar a idéia divisionistas e Campo Grande torna-se o centro político de difusão do movimento.
Dois anos depois, 1934, o Congresso Nacional reunía-se para elaborar uma nova Constituição. Jovens estudantes fundam a Liga Sul-Mato-Grossense que, inicialmente objetiva angariar apoio dos sul-mato-grossenses para o manifesto que seria encaminhado ao Presidente do Congresso Nacional Constituinte. A Liga desencadeia a campanha divisionista no sul de Mato Grosso, coletando Treze Mil assinaturas, com as quais visava sensibilizar o governo federal, particularmente os Constituintes, para que eles, na elaboração da Constituição, aprovassem a divisão do Estado de Mato Grosso. Após a promulgação da Constituição, os divisionistas são derrotados, e Getúlio Vargas adota a política nacionalista “Marcha para o Oeste”, a qual visava, entre outros objetivos, a segurança das fronteiras. Para isso mandou instalar novas unidades militares no Sul de Mato Grosso. O aumento do contingente militar efetivou outros objetivos do governo que era a manutenção da ordem e progresso dessa região fronteiriça.
Os divisionistas são envolvidos pela política de Vargas; a Companhia Matte Laranjeira adapta-se a essa política e altera sua estratégia em relação à unidade estadual. Ou seja, os ervais estavam devastados e também a política do Instituto Brasileiro do Matte, criado por Getúlio Vargas, não lhe favoreciam grandes lucros. Por isso ela permite que o governo estadual regularize as posses de terras dos moradores dos ervais, em troca de indenizações sobre os arrendamentos. Em 1943, Getúlio Vargas, em nome da segurança das fronteiras cria o Território de Ponta Porã, o qual deixa de fora, da nova unidade, Campo Grande a principal cidade divisionista. A Criação do Território de Ponta Porã não atendeu aos interesses divisionistas, não satisfaz a política da Companhia Matte Laranjeira, e também não agradou ao governo estadual. Nesse período, o Sul de Mato Grosso é marcado por grandes prosperidades, a qual não era suficiente para equilibrar as finanças estaduais. Percebe-se, nessa fase, que a política de Getúlio Vargas foi um dos obstáculos aos objetivos divisionistas. Percebe-se ainda, a formação de novas oligarquias e a Companhia Matte Laranjeira, gradativamente, retira-se dos ervais. A terceira fase vai de 1945 a 1964.
Após a deposição de Getúlio Vargas, o novo Presidente da República é o General Eurico Gaspar Dutra, que era mato-grossense de Cuiabá. Ele adota uma política de redemocratização do país, a qual reforça a política de integração nacional que incentiva a manutenção da unidade estadual. Em 1946, após a promulgação da Constituição, o governo federal extingue o Território de Ponta Porã reintegrando a região ao Estado de Mato Grosso. Apesar dessa política, os divisionistas, durante as reuniões da Assembléia Constituinte, reorganiza-se e tentam a transferência da Capital de Cuiabá para Campo Grande. As iniciativas divisionistas desse período são frustradas, em parte, devido a grande representatividade política dos sul-mato-grossenses nas esferas estadual e federal, e também, por causa da política de integração nacional do governo federal. Percebe-se que, nesse período, depois de várias reformulações em sua estrutura organizacional, a Companhia Matte Laranjeira mostra desinteresse em reflorestar os ervais, paradoxalmente estimula o governo estadual à regularizadas posses dos colonos. A Quarta fase é de 1964-1977. O golpe de 31 de Março de 1964 põe fim a um período de democracia e inicia um regime militar autoritário. Os militares, buscando um maior controle dos problemas da sociedade, adotam a política do desenvolvimento com segurança, o que permitiu a criação de programas que facilitam o desenvolvimento de alguns Estados, entre eles Mato Grosso. Nesse período, os políticos divisionistas aproximam-se dos militares o que lhes permite tomar parte de algumas comissões que estudam (secretamente) as potencialidades políticas que impediam a divisão de Mato Grosso. Após vários estudos, negociações, acordos políticos, o Presidente Ernesto Geisel assina em 11 de Outubro de 1977 a Lei Complementar nº. 31 que cria o Estado de Mato Grosso do Sul. Nessa fase, a Companhia Matte Laranjeira mantinha apenas algumas fazendas de gado, o seu principal interesse econômico de outrora, a erva-mate, agora era explorado por ervateiros autônomos.
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